BELLA - A GAROTA DA LENDA
O que deu origem à lenda da Fonte da Juventude na pequena cidade de Relvado? Nesta postagem você vai conhecer Bella, a garota da lenda.
Prontos para iniciar esta viagem?
LIVRO I
Prólogo
Uma hora da manhã. Com o coração ainda descompassado, Melissa se dirigiu à cozinha, preparou um chá de camomila e sorveu-o, lentamente. Depois, em silêncio, tomou o rumo do quarto que, naquelas férias, dividia com a prima. Precisava dormir. Ou pelo menos tentar. Tomando cuidado para não acordar Luíza, Melissa atravessou o quarto, puxando a perna defeituosa, até sua cama localizada bem ao lado da janela. A respiração estava um pouco ofegante, mas não era devido aos seus problemas pulmonares. Era pura emoção. Emoção pela história que escutara horas antes contada por vó Clara.
A história de Bella, a menina que encontrou a Fonte.
*
“Ela avançou entre as árvores, esforçando-se para se manter em pé. O ar lhe faltava, as pernas estavam fracas, mas não ousava desistir. Já podia escutar o som da fonte correndo entre as pedras mais adiante. Até o ar parecia mais fresco.
A doença lhe consumia, a morte ciscava nos seus calcanhares. Alguém lhe disse que a fonte existia e Bella não pensou duas vezes em pagar para ver.
As feridas que não cicatrizavam nunca, sangravam e mancharam seu vestido simples. O cabelo louro, antes tão belo, agora era ralo, seco e opaco. Quando Bella adoeceu e percebeu que a beleza e a saúde estavam indo embora juntas, nunca mais teve coragem de ficar frente a frente com Guillermo. Enquanto prosseguia, trôpega e nauseada pelo caminho que levava até a fonte, Bella lembrou, com dor no coração, as vezes em que o noivo bateu à porta da casa até as mãos lhe sangrarem, implorando para Bella abrir. Deitada na cama, inerte e quase morta, Bella sofreu e chorou todas as suas lágrimas. Guillermo ficaria assustado com sua aparência e deixaria de amá-la. Pelo menos era isto o que ela pensava.
Talvez agora seu tormento estivesse no fim. A fonte. Quando soube que havia uma chance, Bella reuniu o que sobrou da sua saúde, o fiozinho de vida que ainda lhe corria pelas veias, e partiu para o que talvez fosse a sua última viagem.
*
O suor pegajoso misturava com o sangue e grudava nas roupas. Cada passo era uma pontada de dor. Cada passo renovava sua esperança. Ansiava por ter sua vida de volta e tudo o que perdera por conta da sua enfermidade.
Só precisava de um gole.
E, de repente, ela estava lá. Bella parou à beira do espelho d’água. As pernas mal lhe sustentavam agora, não tanto pela doença, mas pela emoção que sentia. O ar era tão fresco que ela conseguiu respirar melhor, apesar dos pulmões fracos. A água, cristalina, descia por entre pedras lisas até formarem o lago.
— Eu cheguei – murmurou, emocionada. — Eu estou aqui.
Bella se ajoelhou, devagar, e se inclinou para frente. A água refletiu sua imagem e a jovem recuou um pouco, assustada, mas sem nunca afastar os olhos de si mesma. Os dedos trêmulos tocaram no rosto. Havia uma ferida ali que antes não existia. Uma grande falha no couro cabeludo revelou que Bella estava ficando calva. Meu Deus, estou um monstro, gemeu, o coração batendo tão forte que ficou tonta por alguns instantes.
A mão trêmula tocou na água. A temperatura estava agradável. Um pássaro voou acima da sua cabeça sob o azul intenso do céu. Pareceu a Bella um bom presságio. Juntando as mãos em concha, Bella as mergulhou na água até enchê-las. Na primeira tentativa não deu certo. O tremor fez com que a água derramasse. Em uma desesperada tentativa, deitou-se de bruços no chão. Não tinha mais forças para ficar de joelhos.
Bella tocou na água outra vez. A mão seca e machucada assumiu outro aspecto ante os seus olhos surpresos. As lesões cicatrizaram quase momentaneamente, a pele perdeu o tom amarelado e voltou a sua cor normal. Ela deixou escapar um gemido da mais pura alegria. Então era verdade. Não era lenda. Não iria mais morrer.
Ansiosa, chegou mais à frente e então mergulhou o rosto na água, segurando-se precariamente nas margens do lago. Bella bebeu grandes goles com o rosto submerso, os cabelos boiando a sua volta. Instantes depois jogou a cabeça para trás e respirou fundo. Fazia muito tempo que o ar não entrava livre e enchia totalmente seus pulmões. Bella riu e surpreendeu-se, pois já havia esquecido o som da própria risada. Olhando em volta, reparou que o mundo estava mais colorido. A vida pulsava. As feridas cicatrizaram. Bella levou a mão à cabeça e onde antes havia uma grande falha, agora lindos e compridos fios louros envolviam seus dedos.
— Estou viva. Estou viva!
A jovem ficou em pé. As pernas lhe sustentaram desta vez. Bella olhou, mais uma vez, seu reflexo no lago. A beleza voltara. Gargalhou alto. A fonte da juventude e da saúde agora lhe pertencia. Viveria para sempre. E teria Guillermo outra vez.”
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